
A Fuga do AvelarAlém de fazer a cobertura diária do CRB, o repórter Antonio Avelar tornou-se amigo do lateral Valdir Espinosa. Um dia, entre uma garrafada e outro na Macarronada do Edson ouvi o jogador prometer que ainda iria dar um abraço no Avelar atrás da trave após marcar um gol para o CRB.
Espinosa não era muito de fazer gol, mas por vias das duvidas – seguro morreu de velho – Avelar deixou de assistir aos jogos do CRB atrás da trave, ao meu lado enquanto eu fazia informações de fundo de gol. Avelar passara a ficar no banco, junto ao técnico e dirigentes do galo.
Um dia, no clássico contra o CSA, Espinosa entrou em campo animado, saltitante e me perguntou pelo Avelar. Mostrei o banco e Espinosa fez um sinal para ele vir até o gramado.
- Vai ser hoje, com o Trapichão lotado. Vou fazer o gol e ao invés de correr para a massa vou até o você e lhe dou um abraço. - Nem se abra – limitou-se a dizer o Avelar, pouco acreditando no tal gol.
Segundo tempo, Espinosa aventurou-se dentro da área, recebeu de Djair, deu um lençol num zagueiro e manda firme para dentro da meta do CSA. Espinosa levanta os braços, dá meia volta, aponta para Avelar de longe e corre para o banco.
Avelar nem esperou para contar a historia. Nunca ninguém lhe viu com tanta agilidade ao correr escada abaixo e desaparecer no túnel.
O Jogo Que Tinha Que Terminar EmpatadoJogo do CRB em Propriá – 1956
Em 1956, o Clube de Regatas Brasil foi jogar amistosamente na cidade sergipana de Propriá. Lá aconteceu um fato que somente no submundo do futebol pode acontecer. Vamos contar esta história em duas versões. O árbitro Louvain Ayres e o jogador Paulo Patriota, em depoimentos ao Museu dos Esportes, contaram como tudo aconteceu.
O futebol de Própria estava parado a muito tempo. Para comemorar o retorno do esporte das multidões aos gramados daquela cidade, seus dirigentes convidaram o Clube de Regatas Brasil para um amistoso. Na delegação alagoana seguiu o árbitro da Federação Alagoana de Desportos, Louvain Ayres. Os alagoanos ficaram hospedados no Hotel de Porto Real do Colégio, no outro lado do rio.
Paulo Patriota, um dos grandes jogadores do futebol alagoano e fazia parte do time regateano. Ele contou sua versão. Antes do jogo, o árbitro Louvain Ayres, chamou os dois times e avisou: “a cidade está preparando uma grande festa e o ideal seria que a partida terminasse empatada. É um amistoso, e assim, todos ganhariam e a festa seria completa”. O time do CRB era muito superior em tudo. Logo depois da saída, um ataque fulminante dos alagoanos que terminou com um gol de Paulo Patriota. Louvain Ayres chamou o artilheiro e pediu para ele não fazer mais aquilo porque senão teria que expulsá-lo. Paulo não levou a sério a advertência e o jogo continuou. Um pouco mais e novo gol de Paulo Patriota. O árbitro anulou o gol indicando um impedimento que não houve. Paulo reclamou e foi expulso de campo. O atacante saiu aborrecido e ficou no banco com seus companheiros.
O jogo continuou e o marcador não saía de 1x0. O CRB mudava todos seus titulares, inclusive, colocando um goleiro totalmente inexperiente. O time do Própria era muito ruim e não conseguia empatar, mesmo com o auxilio do árbitro. No finalzinho do jogo, Louvain Ayres marcou um penalti contra o CRB. Uma bola atrasada para o goleiro, um encontrão com um atacante do Própria, e penalidade máxima. Na cobrança, o jogador sergipano chutou em cima do goleiro alagoano. O árbitro mandou cobrar novamente alegando que o goleiro se mexeu. O tempo já estava escurecendo e a visibilidade não era boa. Mas, afinal a bola entrou, e com o resultado de 1x1, tudo ficou em paz.
Na festa, realizada a noite, todos estavam satisfeitos, menos Paulo Patriota. No jogo, foi expulso. Na festa, quando um dirigentes do CRB distribuía um envelope para cada jogador como prêmio para os jogadores do clube que participaram da partida, veio a surpresa. Seu prêmio veio pela metade. Indagando ao dirigente alvi rubro o porque daquela discriminação, teve a seguinte resposta – “quem mandou você fazer gols ? “. Foi quando Paulo percebeu tudo. Não ganharam todos. Apenas alguns. Até os dirigentes do CRB tinham apostado contra seu próprio clube. Como Paulo começou a reclamar em voz alta, os diretores o colocaram numa lancha e o mandaram de volta para o Hotel que ficava no outro lado do rio.
O árbitro Louvain Ayres confirmou tudo e deu mais algumas informações sobre os acontecimentos de Própria. Ela achava que num jogo amistoso e festivo, nada melhor do que um empate para a cidade ficar mais alegre. Afinal, o futebol estava recomeçando em Própria, e um resultado desastroso somente iria trazer desanimo para todos. Louvain confirmou que Paulo não levou a sério a sua advertência e terminou expulso. Se ele tivesse ficado, o CRB ganharia de goleada. Acrescentou que Paulo não entendeu o espirito festivo do jogo.
Com relação ao penalti, Louvain Ayres confessou que como o jogo tinha que ser empate e os sergipanos não ajudavam, não houve outro jeito. O tempo estava escurecendo e nada do gol de empate. O penalti foi marcado e perdido na primeira cobrança. Somente na segunda cobrança é que os sergipanos empataram. Logo depois do gol, fim de jogo. A noite foi com muita festa.
O que aconteceu com Paulo Patriota e os dirigentes do CRB ele não sabe de nada. Apenas comentou que quando retornou a Maceió, foi procurado dias depois pelo Dr. Pantaleão, um fanático torcedor regateano, que o advertiu: “Torcedores do Própria estavam no Bar Colombo procurando por ele. Segundo esses torcedores, o árbitro teria recebido dinheiro para que o jogo terminasse empatado e eles tinha apostado muito dinheiro no CRB e ainda deram gols de vantagem”. Ainda bem que esse encontro não aconteceu. Afinal, Louvain nunca foi de levar desaforo para casa. Com relação a acusação dos torcedores sergipanos, ele declarou que foi desculpa de quem apostou e perdeu. Tudo que ele fez no jogo foi porque sempre gostou de ajudar os mais fracos.
Louvain Ayres foi um dos grandes árbitros do futebol alagoano. Apitou futebol numa época em que não se ganhava nada para dirigir jogo de futebol. Também não era de levar muito a sério as coisas do esporte. Era um bonachão. Quando apitava, as vezes, ajudava os pequenos clubes, principalmente quando os grandes procuravam humilhar os pequenos através de olé. E tem mais. Somente apitava com três coisas no bolso no calção. Uma moeda, uma soqueira e um pequenino revolver. Alias, antes do inicio de cada jogo, reunia os jogadores e, quando ia tirar a moeda do bolso, a soqueira sempre caia a vista de todos os atletas. Com ele ninguém fazia graça. Também foi jogador do CRB, onde fez parte do plantel que conquistou o tetra campeonato em 1940. Depois, defendeu o Barroso e foi campeão alagoano em 1946. Era um zagueiro vigoroso e que não brincava em serviço. Como árbitro foi muito bom. Conhecia as regras e nunca houve nada que desabonasse sua conduta como juiz.
Interventor obriga CSA jogar com o CRBEm 1941, aconteceu um fato interessante envolvendo os tradicionais clubes da cidade. Um caso que mostra como era a rivalidade entre CSA e CRB. O clube azulino tinha sido campeão no ano anterior e o clube da Pajuçara contratou alguns jogadores de outros Estados para reforçar sua equipe. O Interventor de Alagoas, Ismar de Goes Monteiro, achou que um jogo entre azulinos e alvirrubros, poderia arrecadar fundos para a campanha de ajuda aos leprosos. Em princípio, o presidente do CSA, Paulo Pedrosa não aceitou participar do jogo. Achava que, naquele momento, o CRB estava muito melhor pelas contratações que havia feito. Dizia que o CRB queria vencer o campeão de qualquer maneira. Mesmo assim, aceitou comparecer ao Palácio dos Martírios para conversar com Interventor Góes Monteiro e o presidente do CRB Rui Palmeira.
Devido as pressões recebidas pelo Interventor, e os conselhos de amigos, Paulo Pedrosa aceitou o desafio, mesmo contra sua vontade. Quando Rui Palmeira indicou para apitar a partida o tenente Hugo, o CSA não aceitou. Para os azulinos, Hugo era torcedor do CRB e, deste jeito não tinha graça. A situação somente ficou calma quando indicaram o major Mário Lima para apitar a partida. O jogo foi realizado no Mutange. O CRB estava estreando Miguel Rosas, Lisboa e Luiz Hamilton. No final, a grande supressa da tarde: vitória do CSA por 3xO.
O jogo foi realizado no dia 12 de outubro de 1941. Os gols do CSA foram de Pedrinho, Emiliano e Toscano. O juíz foi Mario Lima e o azulino ganhou com Palito, Raul e Nhô, Paurilio, Prazeres e Rui Craveiro, Clywton, Emiliano, Pedrinho, Sales(Toscano) e Murilo. O CRB perdeu com Lisboa (Periquito), Osvaldo e Miguel Rosas, Ventania, Gabino e Luiz Hamilton, Cão, Ramalho, Arlindo, Duda e Luiz Quirino.
O Craque dos CéusQuando Edson chegou a Maceió, trazido por Waldemar Correia em 1986, não tinha muito cartaz, era quase um ilustre desconhecido. Mas, em 1980 surgindo no Botafogo, era considerado por muita gente como o mais provável substituto do inigualável Mané Garrincha. Edson, realmente, tinha tudo para ocupar a vaga deixada por Garrincha. Seus dribles, sua velocidade, seu raciocínio rápido e criação de jogadas, ajudava o Botafogo a conseguir grandes vitórias. Mas, o sucesso subiu a cabeça da maior revelação de general Severiano. Isso influiu decisivamente na sua carreira. Assim, acabou saindo do Botafogo e jogando fora as chances que tinha para se tornar um dos maiores ponteiros o Brasil.
Antes de vestir a camisa do CRB, Edson jogou no Rio Branco de Vitória do Espírito Santo. Lá, foi eleito o melhor jogador do ano e teve oportunidade de, ao lado de alguns companheiros, implantar a credibilidade aos “Atletas de Cristo”. Depois de se embriagar com a vaidade e sair do Botafogo, caindo no obscurantismo, após o rumoroso caso da camareira, Edson acabou encontrando sua própria razão e entrando numa nova fase de vida, tornando-se evangélico. Assim, quando chegou ao CRB, com sua crença e totalmente regenerado, tornou-se o maior ídolo do clube da pajuçara, ganhando o respeito e admiração de todos os alagoanos. Chegou até ser campeão alagoano.
Ele mesmo conta os desencontros da vida que viveu – “No Rio de Janeiro, minha vida era uma loucura. Muita bebida e muitas mulheres. Minha família sofreu horrores, eu brigava com minha mulher e os filhos presenciavam tudo. Era um inferno. Até que encontrei e, com Ele a verdadeira paz de espírito. Hoje, Tudo corre tranqüilo em minha vida “.
E com essa nova filosofia de vida, Edson veio para o futebol alagoano. Deixou de ser o herdeiro de Garrincha, mas se transformou em um craque vencedor.
Era ProibidoO futebol alagoano está repleto de casos, no mínimo curiosos, dentro de sua história. Casos inusitados que por sua natureza, ficam muito difíceis de se acreditar. Em 1985, o CRB tentava impedir o bi campeonato do rival CSA, mas fazia uma péssima campanha. Perdeu os dois primeiros turnos para o clube azulino, embora o plantel estivesse cheio de bons valores.
O técnico China achava que o time, em vez de jogar bola, se especializava em “paqueras e namoricos” inconseqüentes. O julgamento do treinador foi unânimente aprovado pela Diretoria do clube que tinha como presidente Dr. Osvaldo Gomes de Barros. Decretou-se assim, na pajuçara, uma guerra as mulheres, com os jogadores ficando rigorosamente proibidos de “paquerarem e namorarem”. Até as folhinhas de nús artísticos e revistas de mulheres peladas foram terminantemente proibidas de transitarem pela concentração.
O gaúcho Lino, talvez julgando a medida uma brincadeira da diretoria, não cumpriu as regras da linha dura e foi o primeiro a ser punido severamente. Seu contrato foi rescindido com a terrível acusação de “namorar demais”. Também Dentinho, Pedrinho, Idalmir e Wilson também foram punidos com multas de até vinte por cento dos salários.
De Goleiro Para Lavador de CarroJorge Vasconcelos era o técnico do Clube de Regatas Brasil. Cocorote era um dos goleiros do clube da pajuçara. Era dia de treino no estádio Severiano Gomes Filho. O técnico Jorge Vasconcelos, como sempre, chegou cedo e logo já estava no campo para começar os treinamentos da semana. O goleiro Cocorote chegou atrasado. Trocou de roupa e entrou em campo. Foi ai que aconteceu o seguinte dialogo:
Jorge Vasconcelos: “Cocorote você está dispensado do treino. Chegou atrasado e os atrasados não treinam no meu time. Como castigo você lavar a minha Kombi.
”Cocorote: “Seu Jorge, fui contratado para jogar futebol. Não sou lavador de carro. Arranje outro para fazer o serviço.
”Cocorote voltou para o vestiário, trocou de roupa e foi embora. A diretoria do CRB multou o goleiro porque chegou atrasado.
Massagista Evita Vitória do CRBPara jogadores, treinadores e, mesmo, para os “cartolas”, a fama no futebol é coisa relativamente fácil. O jogador porque faz um gol ou defende um pênalti e evita a derrota do seu time. Os “cartolas” porque aparecem nas rádios, jornais e, até televisão, concedendo entrevistas e falando sobre seu clube. Mas outras profissões, ainda que importantes no futebol, a fama não existe. Por exemplo, para um massagista, que cuida dos músculos dos atletas, que os prepara para os jogos, tudo não passa de rotina. A fama e a glória não existe para os massagistas, mesmo nas alegrias de uma vitória. Muitas vezes, o recado do treinador é dado pelo massagista com rapidez e oportunismo, e pode transformar a sorte de uma partida. Ninguém duvida que os massagistas além de massagear pernas famosas, muitas vezes, se tornam confidentes de seus jogadores.
Entretanto, alguns massagistas, ganham manchetes no noticiário esportivo, graças a uma ação deliberada ou surpreendente que cometeu. Um desses casos aconteceu em Alagoas envolvendo Cícero Lopes de Araújo, o popular Castanha, que foi massagista do CSA por mais de dez anos. Um caso curioso que ganhou notoriedade por ter criado uma polêmica incrível. Foi num clássico CRB x CSA, ocorrido no dia 8 de abril de 1976, no Trapichão. O jogo era válido pelo quadrangular decisivo do primeiro turno. O vencedor seria campeão do turno. O juiz era Pedro Rufino. O jogo estava empatado em 1x1. Então aconteceu um ataque do CRB. O lateral Espinosa fez um cruzamento para a área azulina e o goleiro Paulo Sérgio saindo precipitadamente, não segurou a bola que caprichosamente sobrou para o ponteiro Silva. Era a chance do gol da vitória regateana. Silva vinha chegando e chutou em direção as redes azulinas. Foi no momento exato em que o massagista Castanha se aproximava da meta de Paulo Sérgio para transmitir um recado do treinador. Vendo que o chute de Silva tinha endereço certo, não pensou duas vezes, entrou no gramado e, junto ao poste lateral direito, não deixou a bola entrar no gol do CSA, dando um chute em direção ao meio campo.
A torcida do CSA vibrou como se seu clube tivesse marcado um gol. A torcida do CRB ficou revoltada. Todos queriam o gol que parecia iminente. Como a bola não ultrapassou a linha de meta, o juiz não confirmou o tento, mas expulsou o massagista Castanha. O caso durou muitos anos nos noticiários esportivos e causou debates violentos entre as duas torcidas de Alagoas. Um acontecimento inusitado, no qual, pelo primeira vez um massagista ganhou notoriedade e fama.
